Ele sonhou, perseguiu, amaldiçoou e finalmente conquistou a Milão-Sanremo 2026. Aos 27 anos, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates-XRG) escreveu o capítulo mais dramático da 117ª edição da Milão-Sanremo, disputada em 21 de março de 2026, ao vencer na Via Roma após sobreviver a um crashing que parecia ter destruído suas chances.
Foram 298 km entre Pavia e Sanremo a Classicissima, o primeiro Monumento da temporada, a prova mais longa do calendário profissional. Pogacar não apenas venceu: ele caiu, levantou, atacou na Cipressa, dropou Van der Poel no Poggio e sprinteou Pidcock na linha. Tudo na mesma tarde.
O esloveno conquistou seu 11º Monumento na carreira apenas Eddy Merckx (19) tem mais e completou a coleção com a única grande clássica que ainda lhe faltava. Só Paris-Roubaix resta para ter o Grand Slam dos cinco Monumentos.
💥 O crash que quase destruiu o sonho na
A corrida transcorria dentro do roteiro esperado: uma fuga de 9 homens (Marcellusi, Tarozzi, Milesi, Moro, Peron, Lozano, Faure Prost, Belletta e Maestri) abriu 6min30s de vantagem enquanto o pelotão controlava.
Até que o caos chegou em Imperia.
Faltando 30 km para o fim, nos arredores de Oneglia, o pelotão estava esticado ao máximo na aproximação da Cipressa quando Pogacar caiu. O campeão mundial levou junto Wout van Aert, Matteo Jorgenson, Biniam Girmay e Giulio Pellizzari. O momento congelou o coração de qualquer fã de ciclismo.
Mathieu van der Poel escapou por centímetros de ir ao chão, mas foi fortemente atrasado. O panorama mudou num átimo.
Van Aert foi o mais prejudicado: além das escoriações, sua bicicleta ficou imprestável — precisou esperar por uma nova máquina e perdeu mais de um minuto. Pogacar, por sorte, teve danos mínimos na bike e levantou rapidamente.
“Quando caí, por um segundo pensei que tinha acabado”, disse Pogacar após a linha de chegada. “Aconteceu em Imperia, bem antes da parte mais importante da corrida. Não era o ideal. Mas meus companheiros Florian Vermeersch e Felix Großschartner me deram esperança. Sem a equipe, eu teria ido direto para Sanremo assistir à chegada.”
⚡ A reação da UAE: obra-prima tática
O que aconteceu nos 5 km seguintes da Milão-Sanremo 2026 foi uma aula magistral de como salvar uma corrida.
A UAE Team Emirates-XRG não entrou em pânico. Pelo contrário: Isaac del Toro que estava à frente do crash permaneceu na ponta do pelotão, enquanto Brandon McNulty, Domen Novak, Felix Großschartner e Florian Vermeersch organizaram a perseguição.
Em vez de chamar Del Toro de volta, a UAE o manteve na frente uma decisão genial que garantiu que Pogacar tivesse um ponto de encontro já posicionado quando conseguisse retornar. McNulty foi trazido para a frente no momento exato em que seu motor bruto era necessário para ditar o ritmo na Cipressa.
Em 5 km, Pogacar estava de volta ao grupo principal. A fênix havia renascido.
🏔️ O ataque nuclear na Cipressa
Com a aproximação da Cipressa (5,6 km a 4,1%), Pogacar não hesitou. McNulty puxou o pelotão num ritmo infernal, e o esloveno detonou sua aceleração característica.
A potência foi simplesmente monstruosa: Pogacar escalou a Cipressa em 8min49s — 10 segundos mais rápido que o recorde do ano anterior com uma potência estimada de 610 watts (9,5 w/kg).
Apenas Mathieu van der Poel e Tom Pidcock conseguiram seguir. O trio superstar abriu 30 segundos sobre o pelotão em questão de quilômetros.
Na descida e no plano entre a Cipressa e o Poggio, Pogacar administrou forças deixando Van der Poel e Pidcock puxarem enquanto se “escondia” nas rodas e atrás das motos da TV. Enquanto isso, a Lidl-Trek organizava a perseguição no pelotão, trazendo a diferença de volta para apenas 9 segundos no pé do Poggio.
🏁 Poggio decisivo: Van der Poel quebra
Assim que a estrada inclinou no Poggio di Sanremo (3,7 km a 3,7%), Pogacar acelerou de novo. E desta vez, Van der Poel não aguentou.
O tetracampeão das clássicas, que havia gasto energia demais para seguir o ritmo na Cipressa, viu a roda do esloveno sumir na sua frente. A combinação do ritmo implacável na Cipressa e o desgaste do crash que, mesmo sem derrubá-lo, custou energia preciosa finalmente cobrou seu preço.
Pidcock, no entanto, não largou. Britânico de 26 anos da Pinarello-Q36.5, o ex-campeão mundial de cyclo-cross provou que seu teto nas clássicas é muito mais alto do que se imaginava. Grudado na roda de Pogacar como uma sombra, ele desceu o Poggio colado no esloveno.
Os dois abriram 17 segundos sobre o pelotão no cume.
🏆 Sprint na Via Roma: 4 centímetros que valem uma eternidade
Na Via Roma, a larga avenida de Sanremo, o duelo começou. Pidcock recusou-se a puxar queria a roda de Pogacar para o sprint. O esloveno, por sua vez, sabia que Pidcock era explosivo e não podia esperar demais.
A 200 metros da linha, Pogacar lançou o sprint. Pidcock tentou passar pela direita, mas encontrou a barreira. Precisou mudar para a esquerda, perder um décimo de segundo precioso, e então disparou. Ele vinha com velocidade nos metros finais, mas Pogacar jogou a bike na linha.
4 centímetros. Foi o que separou Pogacar de Pidcock na linha de chegada da Milão-Sanremo 2026.
Numa cena que já se tornou icônica, o esloveno vestia sua jersey branca, vermelha e preta da UAE Team Emirates-XRG com a manga esquerda suja de terra e rasgada da queda enquanto erguia os braços na linha. As listras arco-íris de campeão mundial no peito brilhavam sob o céu nublado de Sanremo, e a camisa suja de terra contava a história de um guerreiro que se recusou a morrer.
Pogacar venceu na Via Roma, em Sanremo, sob um céu nublado e ameaça de chuva (85% de probabilidade) as nuvens carregadas pairando sobre a costa da Ligúria, o vento soprando do mar, o asfalto molhado de uma garoa fina que caiu horas antes.
Enquanto isso, nos metros finais, uma história paralela emocionante se desenrolava: Wout van Aert que havia caído, perdido mais de um minuto com uma bike quebrada e lutado contra a dor atacou do pelotão nos 3 km finais e superou Mads Pedersen para cravar o 3º lugar no sprint. Uma das melhores recuperações da carreira do belga.
“Sabia que Tom é super rápido. Ele fez uma corrida incrível e foi muito perto. Não podia esperar muito, então lancei o sprint mas chapeau para ele também”, disse Pogacar.
📊 Top 10 — Milão-Sanremo 2026
| Pos. | Ciclista | Equipe | Tempo |
|---|---|---|---|
| 1º | Tadej Pogacar 🇸🇮 | UAE Team Emirates-XRG | 6h35’49” |
| 2º | Tom Pidcock 🇬🇧 | Pinarello-Q36.5 | m.t. |
| 3º | Wout van Aert 🇧🇪 | Visma-Lease a Bike | +4″ |
| 4º | Mads Pedersen 🇩🇰 | Lidl-Trek | +4″ |
| 5º | Corbin Strong 🇳🇿 | NSN Cycling | +4″ |
| 6º | Andrea Vendrame 🇮🇹 | Decathlon AG2R | +4″ |
| 7º | Jasper Stuyven 🇧🇪 | Soudal Quick-Step | +4″ |
| 8º | Mathieu van der Poel 🇳🇱 | Alpecin-Premier Tech | +4″ |
| 9º | Matteo Trentin 🇮🇹 | Tudor Pro Cycling | +4″ |
| 10º | Edoardo Zambanini 🇮🇹 | Bahrain Victorious | +4″ |
🎯 Análise por equipe: erros e acertos
⚪ UAE Team Emirates-XRG — NOTA 10 ✅ Perfeição tática. Quando Pogacar caiu, a equipe não entrou em pânico. Manter Del Toro na frente enquanto o restante puxava o campeão de volta foi uma jogada de mestre. McNulty ditou o ritmo na Cipressa exatamente no momento certo. A UAE finalmente “quebrou o código” de Milão-Sanremo usando a Cipressa para queimar Van der Poel antes do Poggio.
🔵 Pinarello-Q36.5 — NOTA 9 ✅ Pidcock fez a corrida perfeita. Posicionou-se bem, evitou o crash, seguiu Pogacar nos dois climbs e quase venceu o sprint. Para uma equipe ProTeam, colocar um homem no 2º lugar de um Monumento contra Pogacar é resultado histórico. ❌ Talvez devesse ter alternado a vez na frente no plano entre os climbs para poupar Pogacar mas o resultado final justifica a estratégia.
🟡 Visma-Lease a Bike — NOTA 8 ✅ Van Aert cair, quebrar a bike, perder 1 minuto e ainda chegar em 3º é uma das maiores demonstrações de resiliência do ano. Christophe Laporte também esteve presente no grupo de perseguição. ❌ A equipe poderia ter protegido melhor Van Aert na entrada da Cipressa.
🔴 Alpecin-Premier Tech — NOTA 6 ✅ Van der Poel esteve no grupo certo e seguiu Pogacar na Cipressa. ❌ O crash atrapalhou, mas a verdade é que Van der Poel quebrou no Poggio. Pela primeira vez, vimos o limite do holandês diante de um plano otimizado da UAE. A combinação do ritmo infernal na Cipressa + o desgaste do crash finalmente foi demais. Jasper Philipsen teve que sacrificar sua própria corrida para trazer Van der Poel de volta e isso custou caro.
🔵 Lidl-Trek — NOTA 8 ✅ Pedersen chegou em 4º na sua primeira corrida após uma lesão grave no início da temporada. A equipe foi inteligente ao não queimar energia tentando fechar o gap cedo demais preferiu conservar forças e dar a Pedersen uma chance no sprint. Funcionou quase perfeitamente.
🏆 Os protagonistas
🥇 Tadej Pogacar (27 anos, UAE Team Emirates-XRG) Seu 11º Monumento. Aos 27 anos, só Eddy Merckx (19) tem mais. Pogacar provou que não é apenas o mais forte é o mais resiliente. Caiu, levantou, atacou, dropou o maior rival e sprinteou um dos mais explosivos do pelotão. Tudo na mesma tarde. Sua jersey branca, vermelha e preta (Pissei) da UAE Team Emirates-XRG, com a manga rasgada e suja de terra, virou símbolo da corrida. A bike Colnago com grupo Shimano e rodas ENVE completava o equipamento.
🥈 Tom Pidcock (26 anos, Pinarello-Q36.5) A revelação da corrida. Não apenas seguiu Pogacar ele o incomodou. Seu sprint na Via Roma foi tão perto que a arbitragem precisou confirmar o resultado. A maior prova que seu teto nas clássicas é muito mais alto do que imaginávamos. Jersey navy blue com detalhes dourados da Pinarello-Q36.5, bike Pinarello Dogma.
🥉 Wout van Aert (31 anos, Visma-Lease a Bike) Seis meses após uma cirurgia no tornozelo, o belga mostrou que está de volta. Caiu, quebrou a bike, perdeu mais de um minuto e mesmo assim sprintou para o 3º lugar. Seu primeiro pódio em Monumento desde 2023. Jersey amarela e preta da Visma-Lease a Bike.
4º Mathieu van der Poel (Nederlands, Alpecin-Premier Tech) O bicampeão vigente (2024, 2025) viu seu teto pela primeira vez. A combinação do ritmo alucinante na Cipressa + o desgaste do crash provou que até mesmo o canibal das clássicas tem limites. Jersey azul e laranja da Alpecin-Premier Tech (Kalas), com listras arco-íris nos punhos e gola de campeão mundial 2023.
🌧️ Clima e condições durante a Milão-Sanremo 2026
O dia em Sanremo estava nublado, com 85% de chance de chuva, vento sul/sudoeste de 18 km/h (parcialmente favorável no litoral). As estradas estavam úmidas em alguns trechos devido a garoa nas horas anteriores. Temperatura na casa dos 14°C na chegada. O Poggio estava com asfalto molhado em pontos, o que tornou a descida ainda mais tensa para Pogacar e Pidcock.
A velocidade média foi de aproximadamente 45,2 km/h.


