Pantani x Pogacar – Dois gênios, duas eras, uma montanha: como o recorde de 36min50s caiu após três décadas
O Alpe d’Huez é mais do que uma subida de 13,8 km com 21 curvas fechadas. É um santuário do ciclismo mundial, um palco onde lendas são forjadas e recordes se tornam imortais. Por 31 anos, o nome de Marco Pantani reinou absoluto no topo da montanha francesa. Até 24 de julho de 2026, quando Tadej Pogacar escreveu um novo capítulo na história do esporte.
Em 1995, Marco Pantani, o “Pirata”, escalou os 13,8 km do Alpe d’Huez em 36min50s um tempo que parecia impossível de ser batido. Três décadas depois, Pogacar completou a mesma ascensão em 35min27s, esmagando o recorde por 1min24s. Uma diferença que, no ciclismo de alta montanha, equivale a uma eternidade.
Mas quem foi Marco Pantani? E como Pogacar conseguiu fazer o que muitos consideravam impossível?
Quem foi Marco Pantani, o Pirata?
Marco Pantani nasceu em Cesena, Itália, em 13 de janeiro de 1970. Desde cedo, mostrou um talento extraordinário para subir montanhas. Com seu estilo agressivo, pedalando fora do selim, de bandana na cabeça e brinco na orelha, ele se tornou um dos ciclistas mais carismáticos e amados da história.
Pantani não era apenas um escalador. Ele era o escalador de sua geração. Leve, explosivo e implacável nas rampas íngremes, ele atacava sem piedade e deixava seus adversários para trás com uma facilidade que beirava o sobrenatural.
Principais conquistas de Pantani no Tour de France:
- 1994: Primeira vitória de etapa no Tour, em Hautacam, aos 24 anos
- 1995: Recorde do Alpe d’Huez (36min50s) na 10ª etapa
- 1997: Duas vitórias de etapa (Alpe d’Huez e Morzine)
- 1998: Vence o Tour de France (sua maior conquista), além do Giro d’Italia no mesmo ano a lendária “Double”
Pantani foi o último italiano a vencer o Tour de France, em 1998, e o primeiro a conquistar o Giro-Tour no mesmo ano desde Fausto Coppi, em 1952. Seu auge foi curto, mas brilhante.

O recorde de 1995: o dia em que Pantani parou o tempo
O recorde de Pantani no Alpe d’Huez foi estabelecido em 12 de julho de 1995, durante a 10ª etapa do Tour de France, entre Aime e Alpe d’Huez, com 159 km de percurso.
Naquele dia, Pantani atacou cedo na subida e simplesmente desapareceu na frente. Pedalando com sua característica agressividade, ele completou os 13,8 km em 36min50s, a uma velocidade média impressionante para a época. O italiano deixou para trás nomes como Miguel Indurain, o pentacampeão do Tour, que na época vestia a camisa amarela.
O tempo de Pantani tornou-se uma lenda. Durante 31 anos, os melhores escaladores do mundo tentaram se aproximar, mas nenhum conseguiu. Lance Armstrong chegou perto em 2004 (37min36s), mas ainda estava a quase um minuto. Ninguém imaginava que o recorde cairia tão drasticamente.
O trágico fim de Il Pirata
A história de Marco Pantani é também uma das mais tristes do esporte. Após vencer o Giro e o Tour em 1998, ele foi expulso do Giro de 1999 quando liderava a prova, após ser pego em um exame de hematócrito elevado um indicador de doping.
Pantani nunca mais foi o mesmo. Sua carreira entrou em declínio acelerado. Ele passou a sofrer de depressão profunda e dependência química. Em 14 de fevereiro de 2004, aos 34 anos, foi encontrado morto em um quarto de hotel em Rimini, vítima de uma overdose de cocaína.
O ciclismo perdeu não apenas um grande campeão, mas uma figura única, que transcendeu o esporte e se tornou um símbolo de paixão, talento e tragédia.
Pogacar em 2026: o dia em que a lenda caiu
No dia 24 de julho de 2026, Tadej Pogacar escreveu seu nome na história ao lado de Pantani. O esloveno da UAE Team Emirates-XRG atacou na base do Alpe d’Huez durante a 19ª etapa do Tour de France 2026, com 127,9 km entre Gap e o topo da montanha.
Pogacar não apenas venceu a etapa. Ele destruiu o recorde que muitos consideravam imortal. Seu tempo de 35min27s foi 1min25s mais rápido que os 36min50s de Pantani. Uma diferença avassaladora.
Como Pogacar conseguiu isso?
- Equipamento moderno: Bicicletas de 6,8 kg com materiais de carbono de última geração, rodas aerodinâmicas e componentes eletrônicos
- Nutrição e ciência do esporte: Conhecimento avançado sobre periodização, alimentação e recuperação
- Treinamento baseado em dados: Potência medida em watts, análise de VO2 máximo, simulações em laboratório
- Equipe de suporte: A UAE Emirates-XRG é uma das equipes mais bem estruturadas do pelotão
- Talento puro: Pogacar é, simplesmente, um dos maiores talentos que o ciclismo já viu
No entanto, é importante contextualizar: Pantani pedalou com equipamentos dos anos 1990, bicicletas de aço de mais de 9 kg, rodas de baixo perfil e roupas que ofereciam muito menos aerodinâmica. A evolução tecnológica explica parte da diferença, mas não toda.

Comparação direta: Pantani vs Pogacar
| Aspecto | Marco Pantani (1995) | Tadej Pogacar (2026) |
|---|---|---|
| Tempo | 36min50s | 35min27s |
| Diferença | — | 1min24s mais rápido |
| Velocidade média | ~22,5 km/h | ~23,4 km/h |
| Idade | 25 anos | 27 anos |
| Equipamento | Bicicleta de aço (~9,5 kg) | Carbono ultraleve (~6,8 kg) |
| Posição na época | Escalador puro, 2º na geral | Líder da geral, camisa amarela |
| Contexto da etapa | 10ª etapa, 159 km | 19ª etapa, 128 km |
| Condições | Verão europeu | 25°C, seco |
| Recorde anterior | 37min35s (1994, próprio) | 36min50s (Pantani, 1995) |
O que os números dizem
A diferença de 1min24s entre Pogacar e Pantani representa uma vantagem de aproximadamente 3,8% no tempo total de subida. Em termos de potência, estima-se que Pogacar tenha sustentado uma média de aproximadamente 6,8 a 7,0 W/kg durante a ascensão, contra cerca de 6,4 a 6,6 W/kg estimados para Pantani.
No entanto, há fatores que tornam a comparação imperfeita:
- Bicicletas e equipamentos: A diferença de peso e aerodinâmica entre as bicicletas de 1995 e 2026 é enorme. Pogacar se beneficiou de 31 anos de evolução tecnológica.
- Pneus: Os pneus de 2026 oferecem muito menos resistência ao rolamento.
- Nutrição e recuperação: O conhecimento sobre nutrição esportiva em 2026 é infinitamente superior ao de 1995.
- Asfaltamento: O asfalto do Alpe d’Huez foi melhorado ao longo das décadas.
Por outro lado, Pantani pedalou em uma época em que o doping era generalizado e muitos de seus concorrentes foram posteriormente pegos. O próprio Pantani foi pego por hematócrito elevado em 1999. Pogacar compete em uma era de controles muito mais rigorosos.
O que torna Pogacar especial
Se Pogacar se beneficiou da tecnologia moderna, também é verdade que ele fez algo que nenhum outro ciclista da era moderna conseguiu. Nomes como Chris Froome, Egan Bernal, Jonas Vingegaard e Primož Roglič tentaram e não chegaram perto do recorde de Pantani.
Pogacar não apenas quebrou o recorde. Ele o pulverizou. E fez isso em uma etapa de 128 km, depois de três semanas de corrida, vestindo a camisa amarela e sob pressão máxima.
O legado de Pantani e o futuro de Pogacar
O recorde de Pantani durou 31 anos porque representava o limite do que um ser humano podia fazer em uma bicicleta subindo uma montanha. Quando Pogacar o quebrou, não foi apenas uma vitória de etapa. Foi a passagem de testemunho entre duas eras do ciclismo.
Pantani será sempre lembrado como o “Pirata” que encantou o mundo com seu estilo agressivo e sua história trágica. Pogacar, por sua vez, está construindo um legado de domínio absoluto que pode superar tudo o que veio antes.
Aos 27 anos, Pogacar já tem cinco títulos do Tour de France, igualando Merckx, Hinault, Anquetil e Indurain. Se continuar nesse ritmo, pode se tornar o maior de todos os tempos.
Mas uma coisa é certa: quando os ciclistas passarem pela curva 7 do Alpe d’Huez nos próximos anos, vão olhar para o topo e lembrar de dois nomes: Pantani, que reinou por 31 anos, e Pogacar, que finalmente o superou.
Leia também a cobertura completa da etapa 19 — Pogacar destrói recorde de Pantani
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